sábado, 27 de outubro de 2018

Jonas

Hoje, quando ia passar no Parque Eduardo VII, vi o autocarro do Benfica junto ao Hotel Intercontinental e pedi ao papá e à mamã para ir tirar uma fotografia. Daí a nada apareceu a equipa toda e a mamã chamou o Jonas (o meu herói) para tirar uma foto comigo. O meu pai aproveitou e pediu também um autógrafo. 

terça-feira, 9 de outubro de 2018

O menino que nunca teve quatro anos



Fica aqui, para memória futura, um conto que o meu pai escreveu para mim:

Era uma vez, há muito pouco tempo, um menino chamado Lucas. Tinha o cabelo encaracolado e uns olhos que brilhavam no meio de umas pestanas enormes. E estava sempre a rir. Como comia bem e dormia ainda melhor, tinha muita energia e adorava correr. A sua brincadeira preferida era o jogo da apanhada. Nada o fazia mais feliz do que ser perseguido e perseguir os outros.
Um dia, em pleno inverno, a caminho da creche, o Lucas viu uma poça de água e, em vez de se desviar como toda a gente, entrou por ela adentro. Claro que ficou com os pés todos molhados, para já não falar das meias e das calças, e o pai ralhou com ele mas, quando viu o filho a chorar, arrependeu-se logo e começou a dar- lhe beijinhos, dizendo: “Não se pode andar dentro das poças de água, porque ficamos molhados e nos podemos constipar. Quando vires uma poça de água, passa ao lado. Se for pequenina, e tiveres a certeza absoluta de que consegues fazê-lo, podes saltar por cima dela. Vais ver que é divertido”.
O menino pediu desculpa, mas como estava molhado e sentia muito frio, uns metros mais à frente, fez chichi nas calças e recomeçou a chorar, com vergonha. O pai ficou outra vez atrapalhado. Estavam quase a chegar à creche e não sabia o que fazer. Ainda era cedo e as lojas estavam todas fechadas, pelo que era impossível comprar umas cuecas, meias e calças para lhe mudar de roupa. Não teve outro remédio senão decidir voltarem para casa, porque não podiam aparecer na creche naquele estado.
Na manhã seguinte, a caminho da creche, havia ainda mais poças de água. O Lucas lembrou-se da conversa da véspera e decidiu experimentar saltar por cima de uma das poças mais pequeninas. “Posso pai?”, perguntou. O pai fez que sim com a cabeça e ele, um pouco a medo, correu e pulou. “Bravo filhote”, exclamou o pai. O menino ficou admirado por ter conseguido fazê-lo. Por isso, quando viu outra poça, um pouco maior, nem pediu autorização: correu, saltou e, uma vez mais, pareceu-lhe fácil.
Desatou então a correr e a saltar por cima de todas poças de água que havia pela frente, cada vez mais seguro se si. Tão excitado estava que nunca mais se lembrou do pai. Como dava saltos cada vez maiores, lembrou-se de experimentar ficar no ar o mais tempo possível. E, para seu grande espanto, o seu salto parecia que nunca mais acabava. Percebeu assim que já não estava apenas a saltar mas talvez a voar baixinho. Entusiasmado, começou a tentar elevar-se no ar. Ao princípio não conseguia muito bem, mas concentrando-se muito conseguiu subir, primeiro à altura de um carro, depois de uma árvore e, por fim, já estava acima das casas mais altas.
Eufórico, o Lucas pôs-se a voar ao lado dos pombos, por cima do bairro, às curvas e aos ziguezagues até que, de repente, ouviu a mãe a chamar lá muito ao longe: “Lucas! Lucas!”.
Não estava à espera de ouvir a mãe e perdeu a concentração. Começou a cair. Por mais que se esforçasse, já não conseguia manter-se no ar e ganhou de medo. Foi então que acordou, com o pai e a mãe a darem-lhe beijinhos porque estava a chorar. “Estavas a ter um sonho mau?”, perguntou a mãe.
 O menino nem queria acreditar.
Afinal tinha sido tudo um sonho? Não tinha voado realmente? Como é que era possível? Limpou as lágrimas à manga do pijama, fungou duas vezes e perguntou com uma voz muito sumida: “Acreditas que posso voar, mamã?”. “Claro que acredito”, riu-se ela.
 O pai refilou: “Temos mas é que nos despachar, senão perdemos o autocarro”.
Na rua, a caminho da creche, o Lucas começou a correr e a dar saltos mas, por mais que se esforçasse, eram saltos pequeninos, que o deixavam frustrado. O pai pediu-lhe para parar com aquilo, porque se podia aleijar e ele respondeu: “Vais ver papi. Vou treinar muito e quando tiver para aí uns cinco anos já vou conseguir voar”. O pai respondeu a rir: “Mas tu já tens cinco anos filhote”.
O menino olhou para ele como se olha para um maluco. “Eu ainda só tenho três anos, pai!”, disse ele muito sério. “Não Lucas, já tens cinco”, teimou o pai. “Não te lembras da tua festa de anos? Foi tão bonita...”

O Lucas estava pasmado, sem saber o que pensar. Desabafou: “Mas ainda ontem eu tinha três anos!” Com um encolher de ombros, o pai sorriu: “Pois é, filhote, o tempo passa a correr”.
Nessa manhã, na creche, o Lucas disse aos amigos: “Vocês sabiam? Eu nunca tive quatro anos, saltei logo dos três para os cinco”. “Anda mas é jogar à bola”, gritaram eles e o Lucas nunca mais pensou no assunto. Mas ainda hoje, com sete anos, antes de adormecer, às escuras na cama, o Lucas põe-se a pensar em como seria bom voar, na esperança de conseguir sonhar com isso.